Deus não é rival do homem; pode fazer de «César» um instrumento de libertação
Isaías 45,1.4-6a; Salmo 95 (96); 1 Tessalonicenses 1,1-5b; Mateus 22,15-21.
Queridos irmãos e irmãs,
1. Os textos da liturgia eucarística deste domingo oferecem-nos um ensinamento profundo sobre a nossa vocação cristã no mundo, nomeadamente no que diz respeito à nossa relação com a vida política, económica e social.
2. No Evangelho, este ensinamento surge do confronto de Jesus com um grupo de adversários. Os fariseus procuravam apanhar Jesus nas suas palavras. Para isso, enviam-lhe uma delegação composta pelos seus discípulos e pelos herodianos. Estes últimos eram judeus partidários da dinastia de Herodes, o Grande. Sendo Jesus galileu, estava sob a jurisdição de Herodes Antipas. Ao enviarem herodianos, os fariseus esperavam que o menor deslize político de Jesus chegasse aos ouvidos de Herodes, que tomaria então as medidas necessárias junto dos romanos que o tinham colocado no poder.
3. A mensagem dos fariseus a Jesus começa por uma descrição da sua pessoa: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas.» É altamente significativo ver os adversários reconhecerem as nossas qualidades morais e espirituais. O que dizem de Jesus é verdade, mas quem o diz é falso.
O que dizem é verdade, como atestam todos os Evangelhos. Por exemplo, o fariseu Nicodemos declara: «Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus como Mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que Tu fazes, se Deus não estiver com ele» (Jo 3,2). Que Jesus não se deixa influenciar por ninguém, nem mesmo pelo rei, prova-se quando ousa chamar raposa a Herodes diante de fariseus: «Ide dizer a essa raposa: Eis que expulso demónios e faço curas hoje e amanhã, e ao terceiro dia chego ao fim» (Lc 13,32). Os fariseus dizem, portanto, a verdade.
Contudo, são falsos, porque a sua atitude para com Jesus não corresponde ao que dizem d’Ele. Se afirmam que Jesus é sempre verdadeiro e que ensina o verdadeiro caminho de Deus, porque é que não acolhem a sua mensagem nem O seguem? Condenam-se a si mesmos pelas suas palavras. É por isso que o Senhor, conhecendo a sua malícia, lhes chama hipócritas.
4. A pergunta capciosa que fazem a Jesus é se se deve, ou não, pagar o imposto a César. Tratava-se de um imposto anual cobrado aos adultos dos 12 ou 14 anos até aos 65. Tinha sido instituído no ano 6 depois de Cristo, quando a Judeia se tornou província romana. A maioria dos judeus não gostava deste imposto, que era uma recordação amarga da colonização. Os fariseus tinham elaborado habilmente a sua estratégia. De facto, se Jesus respondesse afirmativamente, ser-lhes-ia fácil apresentá-l’O como alguém sem patriotismo, que encorajava a submissão a Roma. Ora, muitos dos que seguiam Jesus esperavam que Ele fosse libertar Israel (cf. Lc 24,21). E se Jesus respondesse negativamente, poderia facilmente ser acusado de fomentar uma rebelião contra Roma.
5. Cristo percebe muito bem tudo o que está em jogo na pergunta; trata-se de uma verdadeira prova ou tentação. Por isso declara: «Porque Me tentais?» O verbo que usa é o mesmo que é utilizado no relato da tentação de Jesus no deserto depois do seu batismo (Mt 4,1ss). Os fariseus desempenham, de certo modo, o papel de Satanás, o tentador, contra Jesus.
Jesus, o vencedor das tentações de Satanás, vencerá também esta. Como? Pede-lhes que Lhe mostrem uma moeda de prata imperial, pois era só com esta moeda que se devia pagar o imposto anual. Jesus exerceu o seu ministério público sob o reinado de Tibério. Na época, a moeda tinha esta inscrição: «Tiberius Caesar Divi Augusti Filius Augustus Pontifex Maximus» («Tibério César, filho do divino Augusto, Augusto, sumo pontífice»). Para os judeus piedosos, estas palavras eram blasfemas. Jesus, sabendo isto, e uma vez que o imposto devia ser pago com esta moeda, declara então aos seus interlocutores: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».
Dai a César o que é de César: ao pagar o imposto ao imperador, tendes a oportunidade de lhe devolver esta moeda que tem a sua efígie e palavras que considerais blasfemas. Simbolicamente, pode dizer-se que se trata de um gesto pelo qual se faz a escolha da liberdade, desembaraçando-se, ainda que momentaneamente, daquilo que recorda a colonização. A delegação fica estupefacta: «ficaram admirados», diz São Mateus (22,22). E, à semelhança de Satanás no relato das tentações, deixam Jesus.
6. O Senhor Jesus diz também que se deve dar a Deus o que é de Deus. Significa isto que a Igreja se deve desinteressar das coisas deste mundo, a pretexto de que são assuntos de César? Alguns políticos pensam assim. Para eles, a Igreja deve limitar-se a pregar sobre os sete sacramentos e deixar aos atores políticos e económicos as questões ligadas à organização da cidade terrena. Um célebre político africano, já falecido, gostava de citar este texto evangélico para recordar aos bispos e aos padres do seu país que não deviam imiscuir-se nos assuntos políticos do país, sublinhando que Cristo tinha sido categórico: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Devemos seguir esta linha de pensamento?
7. Passemos agora à primeira leitura. Isaías apresenta-nos o caso de um rei pagão, o persa Ciro, que, no exercício do seu poder temporal, se torna instrumento de libertação de Deus em favor do seu povo. Temos aqui um oráculo profético em favor de um soberano estrangeiro cuja ação libertadora reflete a de Deus. Portanto, Deus não é rival do homem. Deus pode fazer de «César» um instrumento de libertação. César pode tornar-se esse instrumento dando a Deus o que é de Deus. Nesta perspetiva, a nossa missão como cristãos, sobretudo daqueles que exercem cargos políticos, consiste em agir em conformidade com o Deus que liberta e salva a humanidade de todas as situações de opressão.
8. Na segunda leitura, São Paulo, dirigindo-se aos tessalonicenses, evoca a atividade da sua fé, o esforço da sua caridade e a firmeza da sua esperança. A maneira como exercemos as nossas responsabilidades políticas, económicas ou sociais pode também tornar-se para nós ocasião de dar razão da esperança que nos habita, ou a marca de uma fé ativa e de uma caridade que se faz sacrifício pelos outros.
9. Portanto, se é preciso distinguir bem entre o que é de César e o que é de Deus, Jesus não nos pede que oponhamos César e Deus. Só que, quando César se toma por Deus, o discípulo de Cristo tem a obrigação de lhe recordar que «é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens» (At 5,29). Mas quando ele age pelo bem comum, na perspetiva do Reino de Deus, devemos submeter-nos a ele e trabalhar com ele.
Rezemos pelos nossos líderes na cidade terrena, para que se tornem instrumentos do Deus que liberta e não imagens do Faraó que oprime. Possamos também nós, com a força do Espírito Santo, agir em conformidade com a nossa missão de transformar este mundo segundo o Reino de Deus. Ámen.
Publicado originalmente em SPIRITANS AFRICA AND ISLANDS no Substack.

