27.º Domingo do Tempo Comum, Ano A — 4 de outubro de 2026
P. Ayeni Ayodele, C.S.Sp.
Isaías 5,1-7; Filipenses 4,6-9; Mateus 21,33-43.
Queridos irmãos e irmãs,
Situemos a parábola de hoje no seu contexto. O início de Mateus 21 ajuda-nos a fazê-lo. O capítulo começa com a subida de Jesus a Jerusalém (a sua entrada triunfal montado num jumento). Isto significa que o Evangelho de hoje faz parte do ensinamento de Jesus aos seus discípulos — e, em última análise, a toda a humanidade — sobre o caminho da fé e sobre o que Jerusalém representa nesse caminho.
Para compreender a parábola, precisamos, portanto, de prestar atenção ao lugar para onde Jesus vai (Jerusalém), a quem o acompanha (os seus discípulos), a quem se dirige (os líderes religiosos e os que vendiam no Templo) e ao que acontece pelo caminho (vai montado num jumento).
Jerusalém, a cidade para onde Jesus caminha, pode significar muitas coisas. É a Cidade Santa, o lugar do Templo e, portanto, da «casa de oração». É também uma cidade de contradições: um lugar sagrado para Deus, mas preso em lutas políticas, religiosas e económicas — o poder imperial romano, a liderança religiosa judaica, as expectativas do povo simples e o anúncio do Reino por Jesus — tudo ali converge.
Na parábola de hoje, Jerusalém torna-se símbolo da contradição entre a vontade de Deus e a resistência humana a essa vontade. A batalha que Jesus trava não é, antes de mais, militar ou política (não monta um cavalo, sinal de poder); é moral e espiritual (monta um jumento) — a instauração do Reino de Deus através da conversão do coração humano.
Os destinatários imediatos da parábola de Jesus são os sumos sacerdotes e os fariseus (Mt 21,45), embora os seus discípulos também estejam presentes na narrativa mais ampla. Jesus ensina, portanto, a dois níveis. Confronta líderes religiosos que falharam nas suas responsabilidades e, ao mesmo tempo, instrui os discípulos sobre o tipo de liderança e de discipulado que se espera deles. O silêncio dos discípulos merece também reflexão: acompanharam o Mestre a Jerusalém para aprender com ele o que exige a fidelidade a Deus.
Comecemos, então, pela ideia de «caminho». Jesus entra em Jerusalém, purifica o Templo, ensina ali e depois sai da cidade para passar a noite em Betânia (Mt 21,17). As suas idas e vindas entre Betânia e Jerusalém criam um contraste importante. Jerusalém representa o centro da autoridade religiosa e política, enquanto Jesus se identifica repetidamente com os que estão fora dos centros de poder estabelecidos.
A sua subida a Jerusalém e a entrada no Templo podem, portanto, ser compreendidas como Deus que vem reclamar o que lhe pertence. Isto explica o significado de Jesus expulsar do Templo os compradores e vendedores antes de ali ensinar: «A minha casa será chamada casa de oração» (Mt 21,13). O Templo pertence a Deus. A autoridade religiosa existe para servir Deus e o seu povo, não para se apropriar da vinha de Deus.
Este é o pano de fundo da parábola dos vinhateiros homicidas — o Evangelho de hoje. Deus é o dono; a vinha pertence-lhe; os seres humanos são arrendatários e administradores. O pecado fundamental dos vinhateiros é esquecerem esta distinção. Começam a comportar-se como se aquilo que apenas lhes foi confiado lhes pertencesse de facto.
E esta não é apenas a tentação deles. É também a nossa.
A parábola de hoje leva-nos através da história de Israel e, por fim, ao próprio mistério de Cristo: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos» (Mt 21,42).
Deus tinha um projeto para a sua vinha. Isaías já tinha cantado essa vinha na primeira leitura. Deus plantou-a, cultivou-a, protegeu-a e esperava bons frutos. No entanto, em vez de justiça, encontrou sangue derramado; em vez de retidão, ouviu o clamor dos oprimidos (Is 5,7).
Jesus retoma agora a mesma imagem. Os vinhateiros recebem a vinha, mas pouco a pouco começam a comportar-se como donos. Maltratam os servos enviados pelo proprietário e acabam por matar o seu filho, pensando: «Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança» (Mt 21,38).
Aqui reside um dos perigos espirituais mais profundos revelados pela parábola: podemos habituar-nos tanto aos dons de Deus que começamos a comportar-nos como se o próprio Deus fosse desnecessário:
A nossa vida é a vinha de Deus.
A nossa família é a vinha de Deus.
A Igreja é a vinha de Deus.
Os nossos talentos são a vinha de Deus.
Os nossos cargos e responsabilidades são a vinha de Deus.
Até o nosso tempo é a vinha de Deus.
Somos arrendatários, não donos.
Sempre que usamos o que Deus nos confiou sem perguntar que frutos Deus espera disso, repetimos o erro dos vinhateiros.
Deus deseja frutos, não a destruição dos pecadores!
Quando Jesus pergunta o que deve acontecer aos vinhateiros homicidas, a resposta é severa: o dono «fará morrer miseravelmente esses miseráveis e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mt 21,41). Mas Jesus desvia a atenção da vingança para a fecundidade: «O Reino de Deus ser-vos-á tirado e dado a um povo que produza os seus frutos» (Mt 21,43).
A ênfase é significativa: Deus quer frutos. O objetivo da vinha não é a destruição, mas a colheita. Deus envia servo após servo porque continua a procurar frutos. Por fim, envia o seu Filho. Mesmo perante rejeições repetidas, Deus continua a chamar a humanidade de volta à fidelidade. Esta é a esperança contida numa parábola de resto inquietante.
Deus não se alegra com a destruição dos pecadores; chama os pecadores à conversão. O seu Reino não pode ser monopolizado por nenhuma nação, raça, sistema político, classe social ou grupo religioso. Pertence a Deus, e os que o recebem são chamados a produzir os seus frutos: justiça, verdade, misericórdia, santidade, paz e amor. O reinado de Deus não avança pela conquista militar ou económica, mas através de corações convertidos e vidas transformadas pela graça.
Onde está Jerusalém hoje?
No Evangelho, Jerusalém não é apenas um lugar geográfico. Espiritualmente falando, «Jerusalém» aparece onde quer que a vontade de Deus encontre resistência humana. Aparece onde quer que os poderosos empurrem os fracos para as margens; onde quer que a corrupção substitua a justiça; onde quer que a autoridade religiosa se sirva a si mesma; onde quer que a dignidade humana seja sacrificada à riqueza, à influência, à ideologia ou ao poder.
E Cristo continua a entrar nestas Jerusaléns. Entra através dos que defendem a dignidade humana. Entra através dos que trabalham pela reconciliação. Entra através dos que dizem a verdade quando o silêncio seria mais fácil. Entra através de homens e mulheres que se recusam a lucrar com a injustiça. Entra através de cristãos que escolhem a fidelidade ao Evangelho mesmo quando essa fidelidade tem um preço.
É por isso que o caminho cristão nem sempre pode ser confortável. A subida de Jesus a Jerusalém levou à Cruz. Os servos da parábola sofreram porque levavam fielmente a mensagem do dono. Os profetas sofreram porque diziam a verdade de Deus. O discipulado cristão exige, por isso, por vezes, a coragem de se opor à injustiça, mesmo quando isso custa caro.
No entanto, os cristãos nunca se devem tornar aquilo a que se opõem. Não podemos combater o ódio com ódio, a violência com vingança ou a injustiça com outra forma de injustiça. O Reino que anunciamos tem de ser já visível nos meios com que o procuramos:
A verdade deve ser defendida com verdade;
A justiça deve ser procurada com justiça;
A paz deve ser buscada pacificamente;
E é precisamente por isso que precisamos da graça.
São Paulo leva a mensagem das leituras de hoje para a vida pessoal de cada cristão — a oração. A luta pelo Reino de Deus não acontece apenas nos governos, nas instituições ou nas sociedades. Acontece primeiro no coração humano. Paulo diz-nos: «Não vos inquieteis com coisa alguma; mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos a Deus com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.» E depois dá-nos um programa de vida cristã:
«Tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, é isso que deveis ter em conta» (Fl 4,6-8).
Aqui Paulo personaliza a nossa responsabilidade na vinda do Reino de Deus — um apelo à ação. É fácil identificar os maus vinhateiros fora de nós. Podemos apontar para políticos corruptos, governos injustos, líderes religiosos irresponsáveis, empresários desonestos, grupos violentos ou estruturas sociais injustas. Mas o que acontece quando a vinha é o meu próprio coração? O que acontece quando o Templo que precisa de ser purificado sou eu?
São Paulo recorda-nos que os nossos corpos são templos do Espírito Santo. Por isso, a luta entre o Reino de Deus e a resistência a esse Reino acontece também dentro de nós:
Há pensamentos que têm de ser expulsos;
Há hábitos que têm de mudar;
Há rancores que têm de ser entregues;
Há relações que têm de ser curadas;
Há pecados que têm de ser confessados;
Há verdades que têm de ser ditas;
Há atos de justiça que têm de ser praticados;
Há orações que têm finalmente de ser rezadas.
Antes de perguntar como Deus purificará o mundo, cada cristão deve, portanto, perguntar: o que precisa de ser purificado em mim? O Pai-Nosso já nos ensina a rezar: «Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.» Mas sempre que dizemos estas palavras, estamos a pedir a Deus que comece por nós:
«Venha a nós o vosso Reino» — nos meus pensamentos.
«Seja feita a vossa vontade» — nas minhas decisões.
«Venha a nós o vosso Reino» — na minha família.
«Seja feita a vossa vontade» — nas minhas relações.
«Venha a nós o vosso Reino» — na minha paróquia e comunidade.
«Seja feita a vossa vontade» — na forma como trato os outros.
É assim que a vinha de Deus começa a dar fruto. Nenhum esforço para a santidade é pequeno demais. Nenhum ato sincero de justiça é insignificante. Nenhum gesto de reconciliação é desperdiçado. Nenhuma oração feita com fé fica sem ser ouvida.
Deus continua a procurar fruto na sua vinha. A pergunta é: que fruto encontra ele em mim?
Tarefa para a semana
Reze o Pai-Nosso todos os dias desta semana. Sempre que disser «Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu», faça uma pausa e pergunte-se:
O que estou a fazer — ou a deixar de fazer — que impede o Reino de Deus de se tornar mais visível na minha vida, na minha família, na minha Igreja e na minha comunidade? Depois, escolha uma ação concreta durante a semana através da qual o Reino de Deus se possa tornar mais visível por meio de si.
Lembre-se: somos arrendatários, não donos; servos, não senhores. Deus confiou-nos a sua vinha e continua a vir procurar os seus frutos.

