O Deus de todos os povos, através da imagem universal de Deus
Isaías 45,1.4-6; 1 Tessalonicenses 1,1-5b; Mateus 22,15-21.
Queridos irmãos e irmãs,
É sempre bom saber quando mudar de plano de jogo ou de estratégia, sobretudo quando esta não produz os resultados desejados. Depois de ter usado tantas parábolas para falar aos sumos sacerdotes e aos fariseus, sem êxito, Jesus muda agora de tática e envolve os fariseus numa conversa mais direta. Como conduz Jesus esta conversa franca?
Convém hoje um pouco de contexto sobre os adversários de Jesus. Na sua conspiração para eliminar Jesus, forma-se uma nova aliança e os fariseus adotam uma nova estratégia. Envolvem os herodianos, cuja lealdade política simbolizava o domínio do povo judeu por Roma. Os fariseus ultrapassam o âmbito estritamente religioso e procuram apanhar Jesus no domínio político-económico dos impostos.
Duas observações são importantes aqui. Em primeiro lugar, os herodianos eram partidários da dinastia de Herodes e da sua acomodação ao poder imperial romano. Representavam uma ordem política em que a autoridade romana exercia um poder considerável sobre a Judeia. A sua posição estava em tensão com a esperança daqueles que ansiavam pelo reinado direto de Deus sobre Israel. Na linguagem de hoje, poder-se-iam comparar alguns aspetos da sua lealdade política a uma orientação política secular, embora as circunstâncias históricas fossem bem diferentes.
Em segundo lugar, os fariseus, embora fossem influentes líderes religiosos judeus, são com razão chamados hipócritas por Jesus no Evangelho de hoje, por estarem dispostos, neste encontro concreto, a aliar-se aos seus adversários políticos para O derrubar. A sua conduta revela que a sua preocupação imediata não é a busca da verdade de Deus, mas a promoção dos seus próprios interesses.
Neste contexto de domínio político romano, a pergunta sobre os impostos feita a Jesus torna-se um teste à sua lealdade para com a autoridade romana. Mais precisamente: manter-se-á Jesus fiel à sua reputação de veracidade e imparcialidade perante uma pergunta politicamente explosiva? Tomará Ele uma posição que possa ser interpretada como sedição contra Roma?
O clima político da época favorecia uma mentalidade de «ou… ou»: ou se era por Deus, recusando pagar impostos a César, ou se era por César, aceitando a obrigação de os pagar. A pergunta feita a Jesus reflete esta divisão. Contudo, a resposta de Jesus não é do tipo «ou… ou», mas do tipo «tanto… como», o que surpreende os seus interlocutores.
Por detrás da questão dos impostos esconde-se a necessidade de Jesus esclarecer se o estabelecimento do Reino dos Céus, tema dominante das parábolas que temos lido nos últimos domingos, entra necessariamente em conflito com os reinos estabelecidos da terra, em particular o Império Romano.
Duas afirmações-chave ajudam-nos a interpretar o Evangelho de hoje. Provêm da pergunta de Jesus e da instrução que Ele dá em seguida aos discípulos dos fariseus e aos herodianos:
«De quem é esta imagem e esta inscrição?»
«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»
Jesus deixa claro que a moeda tem a imagem e a inscrição de César e pode, portanto, ser devolvida a César como pagamento do imposto. Mas a questão mais profunda que Jesus quer que os seus ouvintes considerem é esta: o que receberam os fariseus e os herodianos de Deus que devem igualmente devolver a Deus?
A resposta encontra-se no relato da criação, no Génesis: a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus. Por isso, os seres humanos devem dar a César o que é de César, restaurando e preservando ao mesmo tempo a imagem de Deus em si mesmos.
Jesus serve-se de uma questão político-económica para ensinar a compatibilidade do Reino de Deus com as instituições humanas legítimas. Reconhece a importância de cumprir as responsabilidades cívicas, mas recorda também à humanidade que nunca esqueça as suas obrigações fundamentais para com Deus.
Duas observações adicionais iluminarão ainda mais a nossa compreensão do Evangelho de hoje.
Em primeiro lugar, notemos que o Evangelho de hoje se segue imediatamente à parábola do banquete nupcial e do traje nupcial. No domingo passado, refletimos sobre o homem que foi encontrado sem traje nupcial e foi expulso por não ter correspondido às exigências morais do convite.
Isto liga-se diretamente à instrução de Jesus de dar a Deus o que é de Deus. O que se nos pede é um regresso à imagem original de Deus concedida à humanidade na criação. A preocupação central não é, portanto, apenas o pagamento de impostos a César, mas a restauração da nossa identidade moral e espiritual como filhos de Deus.
Aliás, o próprio Jesus mostrou disponibilidade para pagar o imposto exigido, como lemos em Mateus 17,25-27:
«Quando Pedro entrou em casa, Jesus antecipou-se e disse-lhe: “Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra impostos ou tributo? Dos seus filhos ou dos estranhos?” Pedro respondeu: “Dos estranhos.” Disse-lhe Jesus: “Então os filhos estão isentos. Mas, para não os escandalizarmos, vai ao mar, lança o anzol e tira o primeiro peixe que vier; abre-lhe a boca e encontrarás um estáter. Toma-o e dá-lho por mim e por ti.”»
Embora esta passagem diga respeito ao imposto do Templo e não ao imposto romano do censo, ilustra a disponibilidade de Jesus para cumprir certas obrigações financeiras em vez de causar escândalo desnecessário.
A segunda observação é que a discussão que se segue imediatamente ao Evangelho de hoje (Mateus 22,15-22) diz respeito à ressurreição (Mateus 22,23-33).
Isto recorda-nos que os reinos terrenos são temporários, enquanto o Reino de Deus é eterno. A missão de Jesus não era organizar uma rebelião política contra Roma, mas preparar a humanidade para o Reino dos Céus. Jesus distingue, assim, as obrigações associadas ao governo terreno das que estão associadas ao Reino eterno de Deus.
O imposto do censo, designado pelo termo grego κῆνσος (kēnsos), é o objeto da controvérsia no Evangelho de hoje. Representa uma obrigação financeira imposta sob a autoridade romana. O Reino dos Céus, pelo contrário, convida-nos a examinar o nosso valor espiritual e moral… As riquezas terrenas não determinam a nossa admissão no Reino de Deus. Pelo contrário, a fé, a conversão e a integridade moral são essenciais para a nossa preparação para a vida eterna.
Se levarmos a sério a primeira leitura de hoje, descobrimos que Deus pode servir-se de qualquer pessoa na terra para realizar os seus desígnios. Pensemos, por exemplo, em Ciro. Embora não fosse judeu, Deus chamou-lhe «o meu ungido». Ciro tornou-se instrumento de Deus para a libertação do povo de Israel do cativeiro da Babilónia. Esta escolha extraordinária revela que os desígnios salvíficos de Deus não estão limitados pela etnia, pela nacionalidade ou pela filiação religiosa.
Todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus, e Deus é livre de chamar quem quiser a participar na realização do seu plano divino. Nesta perspetiva, Jesus não estava simplesmente a opor-se a César no Evangelho de hoje. Estava antes a ensinar que a autoridade de Deus transcende as divisões políticas terrenas.
Por extensão, a salvação de toda a humanidade é uma preocupação de Deus. Ninguém é automaticamente excluído do amor de Deus nem do convite à salvação. Esta verdade sobressai com força nas palavras de Isaías:
«Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus. Eu te cingi, sem que Me conhecesses, para que se saiba, desde o nascente do sol até ao poente, que não há outro além de Mim. Eu sou o Senhor e não há outro» (Isaías 45,5-6).
Notemos especialmente as palavras: «sem que Me conhecesses». Deus escolheu Ciro e agiu através dele, ainda que Ciro não conhecesse Deus da mesma forma que o povo de Israel.
Que lição poderosa para aqueles que imaginam que Deus só pode agir através de pessoas que pertencem à sua religião, à sua confissão ou ao seu círculo de amigos!
D. Audu contou um dia a história de um homem cujo trabalho era limpar aviões depois de os passageiros desembarcarem.
Um dia, ao limpar o cockpit, o homem encontrou o manual do piloto e decidiu lê-lo.
Para sua surpresa, as instruções pareciam extraordinariamente simples, por isso decidiu segui-las.
«Para ligar o avião», dizia o manual, «carregue no botão 1.»
Carregou no botão 1, e o motor arrancou.
«Para rolar na pista», continuava o manual, «carregue no botão 2.»
Carregou no botão 2, e o avião começou a mover-se.
«Para descolar», dizia o manual, «carregue no botão 3.»
Carregou no botão 3, e o avião descolou!
Já no ar, o homem procurou ansiosamente a instrução seguinte. Para seu horror, descobriu a seguinte frase:
«Para instruções sobre como aterrar, consulte a próxima edição deste manual!»
Imaginem a sua aflição! Os fariseus e os herodianos, como muitas pessoas que hoje se proclamam santas, incluindo alguns cristãos «nascidos de novo», padres, pastores e evangelistas, descolaram e já estão no ar, mas não sabem como aterrar! Não sabem reconhecer a imagem de Deus nos outros seres humanos, especialmente nos pecadores, nos não cristãos e naqueles que a sociedade considera indignos.
Esquecem que também estas pessoas são filhos de Deus e que Deus pode ainda realizar milagres e prodígios através delas.
Alguns líderes religiosos ficam tão preocupados com a sua suposta santidade que esquecem a compaixão, a misericórdia e a imagem divina que todo o ser humano traz em si, seja bom, mau ou moralmente comprometido.
Sem humildade e conversão, essas pessoas correm o risco de um desastre espiritual, tal como o infeliz limpador de aviões da nossa história.
Talvez as leituras de hoje nos convidem a aprender a reconhecer a imagem de Deus em todos, incluindo aqueles que colocámos nas nossas listas pessoais de intocáveis, inimigos e supostos inúteis.
Se Deus pôde chamar e usar Ciro, um não judeu, como seu instrumento ungido para libertar Israel, e se Jesus pôde mandar-nos dar a César o que é de César, não será possível que o próprio Ciro e o próprio César também pertencessem a Deus? Na verdade, não nos recordam eles que a soberania de Deus se estende para além das fronteiras que nós, seres humanos, construímos?
Aonde nos levará a nossa atitude de «mais santo do que tu» quando fazemos continuamente distinções entre as pessoas e julgamos o seu valor diante de Deus? Quando tomamos o partido dos interesses mundanos e do seu brilho, como fizeram os fariseus ao conspirar com os herodianos, damo-nos conta de que podemos estar a lutar contra os próprios desígnios de Deus? Quando nos recusamos a escutar a Palavra de Deus e a pô-la em prática na nossa vida diária, reconhecemos que estamos a pôr em risco a nossa salvação?
A lição central das leituras de hoje é, portanto, clara: todo o ser humano traz a imagem de Deus, e a nossa responsabilidade é reconhecer, respeitar e honrar essa imagem em nós mesmos e nos outros. César pode ter a sua imagem cunhada numa moeda, mas Deus imprimiu a sua imagem em cada pessoa humana.
As moedas podem pertencer aos governantes da terra, mas a humanidade pertence a Deus. As nossas filiações políticas, posições sociais, identidades religiosas e circunstâncias económicas nunca devem cegar-nos para esta verdade fundamental. Dar a Deus o que é de Deus é oferecer-Lhe os nossos corações, as nossas vidas, a nossa fidelidade e o nosso amor uns pelos outros.
Que Deus nos conceda a graça de reconhecer a sua imagem em cada pessoa que encontramos, especialmente naquelas que achamos difíceis de amar.
Tarefa para a semana
Reserve tempo esta semana para falar com os seus inimigos e rezar por eles, bem como por aqueles que, a seu ver, têm particular necessidade da misericórdia de Deus, da conversão e da salvação.
Publicado originalmente em SPIRITANS AFRICA AND ISLANDS no Substack.

