O «bug das redes sociais» (SM Bug): responder a uma sociopandemia

O «bug das redes sociais» (SM Bug): responder a uma sociopandemia
Fr. Dr. Chinedu Nwadike, C.S.Sp.
Por Fr. Dr. Chinedu Nwadike, C.S.Sp.
Universidade Espiritana de Nneochi, Estado de Abia, Nigéria

Introdução

Quando há um bug no funcionamento de um computador, ocorre uma avaria. Na informática existem muitos tipos de bugs, com diferentes níveis de impacto no funcionamento. Em vários casos, um computador com um bug ainda funciona quando é ligado, mas o seu funcionamento tenderá a produzir resultados errados.

Segundo a neurociência computacional, o cérebro é uma espécie de computador. As ciências cognitivas e a teoria computacional da mente também apoiam esta visão. De modo significativo, então, as operações do cérebro humano podem ser discutidas com termos do mundo da informática.

O cérebro como um computador: uma capacidade de armazenamento estimada em cerca de 1 petabyte.
O cérebro como um computador: uma capacidade de armazenamento estimada em cerca de 1 petabyte.

Investigadores do Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia (Estados Unidos), afirmam que a capacidade de armazenamento do cérebro humano está hoje estimada em cerca de 1 petabyte (cerca de 1000 terabytes), o suficiente para conter grande parte da Internet. No entanto, as nossas formas quotidianas de armazenar e recuperar informação no cérebro seguem dinâmicas diferentes, porque capacidade de armazenamento não é o mesmo que poder de memória. A quantidade de informação que alguém consegue realmente armazenar e aceder é fortemente limitada por uma série de fatores biológicos, ambientais e psicológicos. Além disso, embora inundado por milhões de bits de informação a cada segundo, o cérebro filtra de forma rigorosa e seleciona apenas a informação relevante para o bom funcionamento e a sobrevivência da pessoa como membro vivo da sociedade.

O bug das redes sociais

Quando há um bug no funcionamento do cérebro humano, a pessoa afetada fica cognitivamente diminuída. Continua a pensar, mas o pensamento não é completo, e as ações daí resultantes são socialmente perturbadoras. Compare-se isto à instalação de um programa num computador: a contagem passa de 0% para 10%, depois 35% e assim por diante até 100%, indicando o carregamento completo. Com o carregamento completo, o sistema funciona muito bem. Mas se a instalação chegar, digamos, aos 67% e bloquear devido a um bug, o sistema não consegue funcionar de forma ótima, e o seu desempenho prejudicará as suas necessidades técnicas ou sociais.

Quando uma instalação bloqueia nos 67% por causa de um bug, o sistema deixa de funcionar de forma ótima.
Quando uma instalação bloqueia nos 67% por causa de um bug, o sistema deixa de funcionar de forma ótima.

Quando investigação credível afirma que as redes sociais afetam a saúde mental, está a dizer que as redes sociais são um bug que deve preocupar-nos, pelos seus efeitos na pessoa afetada e na sociedade. O «bug das redes sociais» (SM bug) designa um estado de declínio das capacidades cognitivas normais resultante de um uso excessivo das redes sociais, o que inclui o apego aos smartphones e aos dispositivos digitais que expõem às redes sociais, bem como a dependência dos algoritmos de inteligência artificial para tarefas mentais que o cérebro humano é capaz de realizar sem IA.

O SM bug é a razão pela qual muitos jovens andam distraídos da vida, ao contrário do que acontecia com as gerações mais velhas na mesma idade. Muitos desses jovens estão ocupados a deslizar o ecrã do telemóvel enquanto a vida real lhes passa ao lado. Estes jovens «com bug» lançam-se facilmente em todo o tipo de ações que prejudicam o carácter e perturbam a vida social, em nome da criação de conteúdos ou da diversão nas redes sociais, incluindo aquelas danças vazias e aleatórias que se tornaram populares no TikTok.

Ocupados a deslizar o ecrã enquanto a vida real passa: feeds infinitos, notificações e vídeos curtos.
Ocupados a deslizar o ecrã enquanto a vida real passa: feeds infinitos, notificações e vídeos curtos.

Quando o número de pessoas afetadas pelo SM bug é enorme, os seus comportamentos, tipicamente perturbadores e prejudiciais ao carácter, tornam-se uma cultura, e essa cultura torna-se a norma em que nascem as novas gerações. Nessa cultura, muitos jovens fazem as coisas apenas porque «os outros fazem», e não porque avaliaram a atividade e a consideraram significativa e relevante para uma vida bem-sucedida. Esta situação pode, de certo modo, ser descrita como uma sociopandemia.

Intervenções para travar o bug das redes sociais

O governo australiano deu o passo em frente e tornou-se o primeiro governo nacional a responder ao bug das redes sociais, proibindo as crianças com menos de dezasseis anos de usar redes sociais. A razão apresentada foi que os conteúdos das redes sociais afetam a saúde mental e o bem-estar: algoritmos viciantes que prendem os jovens aos ecrãs (scroll infinito), ciberbullying, ciberfraude e exposição a predadores online. A proibição entrou em vigor a 10 de dezembro de 2025 e obrigou o Facebook, o Instagram, o Snapchat, o Threads, o TikTok, o X, o YouTube e o Reddit, além das plataformas de streaming Kick e Twitch, a impedir que menores de 16 anos criem ou mantenham contas e a desativar as existentes. Algumas pessoas pediram depois que sites de jogos como o Roblox e o Discord fossem incluídos na proibição. O governo esclareceu mais tarde que, em caso de infrações graves ou repetidas, as crianças e os pais não seriam penalizados, mas as empresas de redes sociais infratoras poderiam ser multadas em até 49,5 milhões de dólares australianos (32 milhões de dólares americanos ou 25 milhões de libras).

A proibição australiana para menores de 16 anos abrange as principais redes sociais e plataformas de streaming.
A proibição australiana para menores de 16 anos abrange as principais redes sociais e plataformas de streaming.

Um mês depois da proibição, cerca de 4,7 milhões de contas tinham sido desativadas, segundo o governo australiano. De facto, a humanidade tem de começar por algum lado para salvar o resto. Esperava-se que os governos de outros países tomassem medidas semelhantes. Nesse sentido, o Reino Unido, a França, a Dinamarca, a Malásia, a Nova Zelândia, a China e a Alemanha terão começado a agir. No entanto, a oposição a estas proibições tem sido ruidosa e bem financiada e, segundo a Comissária australiana para a Segurança Online (eSafety Commissioner), mais de 80% das crianças australianas menores continuaram a ter acesso apesar da proibição. Em resposta, como noticiou a BBC a 27 de junho de 2026, o governo australiano reforçou a proibição, aumentando a multa para qualquer plataforma infratora para 99 milhões de dólares australianos (cerca de 68 milhões de dólares americanos ou 51,7 milhões de libras) e obrigando as empresas de redes sociais a provar o seu nível de cumprimento da lei. Além disso, a iniciativa «My Feed, My Way» («O meu feed, à minha maneira»), anunciada em setembro de 2026, exige que as redes sociais ofereçam aos utilizadores a opção de abandonar o feed recomendado por algoritmo em favor de um feed cronológico. Isto mostra que, quando há vontade política, qualquer pandemia social pode ser eficazmente controlada.

Conclusão

A tecnologia é uma mais-valia para a civilização humana, mas deve ser desenvolvida e utilizada em condições controladas que garantam o funcionamento ótimo do cérebro humano e não o seu declínio. Isto aplica-se ao uso das redes sociais e da inteligência artificial. Os jovens devem precaver-se contra o bug das redes sociais, porque está em causa a qualidade da pessoa humana e o futuro da humanidade.

A tecnologia, as redes sociais e a IA devem servir o bom funcionamento do cérebro humano, e não o seu declínio.
A tecnologia, as redes sociais e a IA devem servir o bom funcionamento do cérebro humano, e não o seu declínio.

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