Um «sim moral» a Deus, o nosso traje para o céu
Isaías 25,6-10a; Filipenses 4,12-14.19-20; Mateus 22,1-14.
Queridos irmãos e irmãs,
Ao ler o Evangelho de hoje, a minha mente fica presa a uma pergunta: como pôde um homem entrar no banquete de casamento de Deus sem traje nupcial? Quer isso dizer que a segurança de Deus é porosa e pode ser violada? No entanto, este homem acaba por ser descoberto e lançado nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. O que se passa aqui? O traje nupcial é a chave para compreender o Evangelho de hoje: Deus convida todos à salvação, mas o seu convite exige uma resposta autêntica — um «sim moral» a Deus.
Jesus dirige esta parábola aos sumos sacerdotes e aos líderes religiosos que sabiam que as suas parábolas anteriores se referiam a eles, mas que se recusavam a arrepender-se (Mt 21,45-46). Em vez de desistir deles, Jesus conta-lhes outra parábola. Já aqui há uma boa notícia: Deus não desiste facilmente dos pecadores. Continua a chamar-nos à conversão. O rei prepara um banquete de casamento para o seu filho e envia os servos a chamar os que já tinham sido convidados. Tudo está pronto, mas eles recusam-se a vir. Alguns ignoram o convite; outros maltratam e matam os servos do rei. O problema deles não é nunca terem sido convidados; o problema é terem rejeitado o convite.
A parábola dá então uma volta dramática. O rei diz: «O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às encruzilhadas dos caminhos e convidai para o banquete todos os que encontrardes» (Mt 22,8-9). Os servos saem e reúnem «todos os que encontraram, maus e bons». Vemos aqui o alcance universal da salvação de Deus. O que foi prometido através de Israel chega agora à sua plenitude e expansão universal em Cristo. Isaías antecipa-o já na primeira leitura: Deus prepara um banquete «para todos os povos». A salvação não é propriedade privada de nenhuma raça, classe, nação ou elite religiosa. Deus quer toda a humanidade reunida no seu banquete.
Há um movimento interessante no vocabulário grego de Mateus. Os primeiros convidados são chamados τοὺς κεκλημένους (tous keklēmenous) — os que foram «chamados» ou «convidados» (Mt 22,3). Mais adiante, quando o rei entra no banquete, Mateus fala de τοὺς ἀνακειμένους (tous anakeimenous) — os que estão reclinados ou sentados à mesa (Mt 22,11). O movimento vai de ser convidado a estar realmente à mesa. Mas estar à mesa não basta. Quando o rei vem ver os convidados, descobre um homem sem traje nupcial. A questão já não é apenas saber se se recebeu o convite, mas o que se fez com ele.
O traje nupcial representa, portanto, a resposta autêntica ao convite de Deus: conversão, justiça, fé, caridade e uma vida coerente com o Evangelho. É o nosso «sim moral» a Deus. É possível dizer «sim» com os lábios enquanto a nossa vida diz «não». É possível pertencer exteriormente à Igreja e resistir à conversão interior. Por isso, Jesus conclui: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.» O convite de Deus é oferecido gratuitamente, mas exige uma resposta. Como diz Paulo noutro lugar: «Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor, pois é Deus quem atua em vós» (Fl 2,12-13).
Mas há aqui algo muito importante: o próprio traje nupcial vem de Deus. Isaías diz: «Ele vestiu-me com as VESTES DA SALVAÇÃO, envolveu-me com o MANTO DA JUSTIÇA» (Is 61,10). Deus convida-nos para o banquete, e é Deus quem nos dá o traje! A salvação não é, portanto, algo que fabricamos com a nossa própria perfeição moral. É, antes de mais, graça de Deus. O nosso «sim moral» não compra a salvação; é a nossa resposta livre à salvação que Deus oferece gratuitamente. Deus dá o convite; Deus dá o traje; a nós cabe dizer «sim» e vesti-lo.
Isto ajuda-nos a compreender as palavras de Paulo na segunda leitura: «Tudo posso naquele que me dá força.» A vida cristã não se sustenta apenas com as nossas forças. O pecador que luta para mudar, o cristão que procura permanecer fiel e a pessoa que cai e se levanta de novo, todos dependem da graça de Deus. Por isso Paulo nos garante: «O meu Deus proverá a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza, com magnificência, em Cristo Jesus.» O que conta na salvação não é gabar-se de ser mais santo do que os outros, mas reconhecer a graça de Deus que atua em nós.
O Evangelho de hoje adverte-nos, portanto, contra a tentação de estreitar o convite de Deus. Os servos «reuniram todos os que encontraram, maus e bons». Se Deus lança tão amplamente a rede da salvação, quem somos nós para lhe reduzir o alcance? A missão da Igreja não é decidir de antemão quem merece um convite, mas anunciar que o banquete está pronto. O pecador é convidado. Quem está em dificuldade é convidado. Quem se afastou é convidado. Bons e maus são convidados. Mas todos os que vêm são também convidados à conversão — a vestir o traje nupcial e a deixar que a graça de Deus transforme a sua vida.
A primeira leitura reúne tudo isto de forma belíssima: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa esperança. Exultemos e alegremo-nos, porque nos salvou!» A salvação vem de Deus. Por isso, nenhum de nós chegou tarde demais para ser salvo. Não devemos desesperar por causa da nossa indignidade, nem orgulhar-nos da nossa suposta santidade. Devemos simplesmente acolher o dom de Deus, confiar na sua graça e deixar que o nosso «sim» se torne visível na forma como vivemos.
Assim, quando o Rei vier ver os convidados do seu banquete de casamento, que nos reconheça, a vós e a mim, como seus. O banquete está pronto, o convite foi feito e o traje da salvação é oferecido. Tudo o que Deus pede é que acolhamos a sua graça e façamos do nosso «sim» um «sim» vivido e moral. Esse «sim moral» a Deus é o nosso traje para o céu!
Tarefa para a semana
Reserve todos os dias algum tempo para rezar pela sua própria salvação. Peça a Deus a graça de tornar o seu «sim» visível na vida quotidiana, e passe menos tempo a julgar as faltas dos outros e mais tempo a rezar pela salvação deles.
Publicado originalmente em ESPIRITANOS ÁFRICA E ILHAS, no Substack.

