Quando o diálogo inter-religioso e a JPIC se unem ao serviço dos refugiados congoleses e burundeses
Um espiritano tanzaniano que serve os refugiados de Kigoma há mais de quinze anos conta como líderes religiosos, governo e agências humanitárias trabalharam juntos para pôr fim às tensões entre refugiados congoleses e burundeses — e porque nenhuma instituição pode construir a paz sozinha.

«Valorizamos a humanidade. É isso que vem em primeiro lugar.» Para o P. Deokary Joseph Massawe, C.S.Sp., esta convicção é o ponto de partida do seu ministério junto dos refugiados.
Membro da Província Espiritana da Tanzânia, o P. Deokary trabalha há mais de quinze anos na região de Kigoma, no oeste da Tanzânia, com refugiados do Burundi e da República Democrática do Congo. Partilhou a sua experiência no Workshop de Diálogo Inter-religioso do SCCAI, realizado no Centro Espiritual Rosa Mystica, em Nairobi, de 6 a 10 de setembro de 2026.
Um ministério na língua dos refugiados
Os refugiados burundeses falam kirundi, enquanto os congoleses falam o seu próprio suaíli. A Igreja acompanha as duas comunidades nas suas línguas, respeitando as suas culturas e tradições. A catequese é dada em kirundi e em suaíli, e a prática pastoral segue as orientações das dioceses de origem dos refugiados, juntamente com as da diocese local de Kigoma.
A razão, explica o P. Deokary, é que um campo de refugiados deve ser temporário. «Acreditamos que um dia estas pessoas vão regressar ao seu país ou partir para outro lugar», diz. Se mantiverem a sua língua e o seu modo de vida, «quando regressarem, não serão estranhos ao seu povo, à sua cultura, à sua língua. Será mais fácil para eles continuarem a sua vida».
Quando o medo dividia o campo
Nos primeiros anos, congoleses e burundeses viviam no mesmo campo e partilhavam uma única igreja, e as tensões eram fortes. Alguns congoleses associavam os burundeses aos combatentes banyamulenge que culpavam pelos ataques durante o conflito no leste do Congo. Por isso, os burundeses passaram a ter medo de conviver com os vizinhos.
O problema veio à tona nas conversas pastorais. «Quando celebramos a missa, às vezes não vemos tudo», recorda o P. Deokary. «Mas no escritório as pessoas diziam: fui maltratado por congoleses porque me chamaram banyamulenge, chamaram-me terrorista.»
A equipa pastoral ouviu os dois grupos para compreender as raízes da hostilidade. Como o Burundi, tal como o Ruanda, tem comunidades hutu e tutsi, alguns refugiados congoleses tinham estendido o seu medo a todos os burundeses.
Uma mesa-redonda das religiões
A Igreja depressa percebeu que não podia resolver o conflito sozinha. «Estas pessoas são de confissões diferentes, de religiões diferentes», diz o P. Deokary. Líderes católicos, muçulmanos e de outras religiões reuniram-se à mesma mesa para expor o problema e procurar soluções.
O ponto de encontro era simples: «Seja esta pessoa burundesa ou congolesa, todos são seres humanos.» Valorizar a humanidade como dom de Deus conduz a um respeito fundado no amor. Cada líder levou depois esta mensagem às bases. Os católicos incluíram-na na catequese de crianças, jovens e adultos, e as outras comunidades fizeram o mesmo.
Governo e parceiros humanitários
O governo e as agências das Nações Unidas responsáveis pelos campos acolheram com agrado o trabalho dos líderes religiosos para construir valores sobre bases éticas e religiosas. Acrescentaram também medidas práticas. Cada comunidade recebeu um terreno para a sua própria igreja: uma para os burundeses, com ministério em kirundi, e outra para os congoleses, com ministério em suaíli.
Seguiram-se competições desportivas e de coros. Jovens congoleses e burundeses jogavam uns contra os outros, e coros de crianças, jovens e adultos visitavam as igrejas uns dos outros para competir. «Foi então que a confiança começou a crescer entre os jovens», diz o P. Deokary. A amizade substituiu a desconfiança.
Em cinco a sete anos, a vida tinha voltado ao normal. As pessoas viviam juntas e cuidavam umas das outras, e congoleses e burundeses começaram a casar-se entre si. «Agora essa tensão desapareceu totalmente», afirma.
O diálogo antes do conflito
Para o P. Deokary, esta experiência mostra que o diálogo inter-religioso é «um instrumento para criar paz, colaboração, unidade e coexistência pacífica», um valor que todos devem estimar.
Depois de estudar justiça e paz na Universidade Católica da África Oriental, em Nairobi, regressou a Kigoma e organizou grupos de diálogo. Alguns reuniam católicos e muçulmanos; outros, a nível ecuménico, católicos e outros cristãos. Mais uma vez, o trabalho começou com os líderes. Cada um partilhou os ensinamentos essenciais da sua tradição, e os outros escutaram com respeito. «Escutamos e perguntamos: o que posso aprender com este outro grupo?» A tolerância, diz, significa escutar sem interromper e depois procurar formas de trabalhar juntos.
Os líderes formaram depois comissões nas suas igrejas e mesquitas, chegando às bases. Na Igreja Católica, iam das famílias à paróquia, passando pelas pequenas comunidades cristãs e pelas zonas. Passo a passo, a compreensão cresceu e as tensões diminuíram.
Para esta geração e a seguinte
O P. Deokary alerta que os preconceitos nas comunidades podem ser um sinal precoce de conflito, para a geração atual e para as que virão. Diz que o workshop lhe trouxe novas perspetivas a partir das experiências de outros participantes. Pretende usá-las para alargar o trabalho já em curso em Kigoma.
A sua mensagem é clara: «Uma só instituição não consegue mudar a comunidade.» As instituições religiosas e civis existem todas para o bem comum e o bem-estar da humanidade. «Se unirmos as mãos e colaborarmos, estamos a salvar a mesma humanidade», diz, para que esta geração e a seguinte «não deixem ninguém para trás».
Veja a entrevista completa em vídeo, de 15 minutos e 40 segundos, no Substack.


Deixe um comentário